Riqueza que escorre pro bueiro

Bento é a capital brasileira da uva e do vinho. O bordô característico é referência para a cidade, com seu belo chafariz no centro, as vinícolas mundialmente conhecidas e tudo mais. Bento é tão rica que pode desperdiçar. Todos os anos, as ruas de Bento são literalmente lavadas por um transporte precário de uvas que se tornarão vinho, suco e derivados da fruta. Mesmo com as constantes e diárias chuvas que estão ocorrendo no período, não é difícil grudar o calçado ao atravessar uma rua onde passam os caminhões ou mesmo manchar um calçado branco. E isso, porque, em apenas algumas horas, nossas ruas ficam assim:

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Essa mancha escura que escorre no asfalto, de cheiro forte, é o líquido da uva que está escorrendo das caçambas de veículos que estão transportando a uva. Note que apesar de opaco pela falta de sol direto no dia que fotografei, o rastro da uva segue brilhante. E não é difícil achar um rastro:

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Imagine quantos litros essa (e todas as demais) perderam, quantas garrafas foram perdidas ao longo dos muitos quilômetros de chão entre o produtor e a vinícola, o quanto o preço poderia, sim, baixar em decorrencia de uma maior oferta, ou quanto a mais o sofrido produtor poderia ter ganho por quilo que chegasse para produção. Se acha isso insignificante, saiba que estas fotos são o resultado de menos de um dia após a chuva. Não foi difícil ver caminhões com a lateral caindo continuamente, como numa pequena cascata, esse precioso líquido, e que de tão abundante aqui é desperdiçado. Mas o que me motivou a escrever isso não foi pelo fato de que se transporta uva em Bento como a 60 anos atrás, e sim o fato de que esse sistema de transporte ineficiente, que desperdíça, acredito eu, pelo menos 20 a 30% do que se está transportando, podia ser resolvido de forma muito simples. Simples, ao menos, para quem cresceu com Lego. O que espreme as uvas nos caixotes de plástico é o encaixe com a caixa de cima, que esmaga as frutas da caixa de baixo assim:

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E como desenhei, a solução seria simples, algumas chapas de plástico ou suportes de metal que segurassem a carga em sua posição e impedisse que a caixa de cima ficasse com seu peso todo sobre o conteúdo da caixa de baixo. O que fica é a dúvida se empresas gigantes do ramo tem interesse em ter maior oferta de seus produtos, ou se prefere continuar a crer que fazem um néctar divino que só pode ser consumido por uma minoria, na crença de que o povo pagaria 10~20 reais numa garrafa frente 6~10 reais do chileno, uruguaio, argentino e demais países da região. Se falta eficiência, não adianta propagandear só a qualidade. E numa era verde, sistemas que preservam o ambiente desse grude somado com garrafas retornáveis ou de caixinha, como as de leite, fariam o consumo de vinho brasileiro, por brasileiros, subir.