Estou virtualmente morrendo

Sou prova de que existe vida após o Orkut. E Facebook. E MySpace. Passei tanto tempo diante de um computador, que quem me conhecia sabia que eu muito certamente estaria diante de um quando lembrasse de mim. Fui madrugador, de virar noite jogando. Não que não participaria de alguma lan-party, mas vivo muito bem sem, obrigado. Todo o sofrimento causado pelos constantes problemas relacionados com meu acesso a Internet, indignação com a Brasil Telecom, raiva com a Claro, frustração com a Vivo, me fizeram perceber o óbvio, não preciso disso para viver. Problemas que me custariam saúde, como já me ocorreu, de me tornar agressivamente estressado, que não valem o preço que se paga.

É tão engraçado quando dizem “olha no Orkut” e tenho de responder “não tenho Orkut”. Pensei que seria mais complicado viver sem uma rede social de grande escala. Minha surpresa foi ver que, sim, embora eu jogue mais coisas pra dentro da minha vida real, o tempo que poupo em não atualizar perfil, não enviar fotos (que geralmente consumiam tempo para serem feitas também), não procurar comunidades legais para postar algo inútil (mesmo que interessante), não fingir que sei e julgo tão absurdamente importante a data de aniversário de gente que passa por mim e nem me cumprimenta na rua… é um entulho virtual na vida real. Orkut não paga minhas contas, Facebook não me dá jogos de Play 3 pra jogar, percebe? Prefiro gastar aqueles minutos com coisas que me dão mais prazer, um trabalho mais interessante, algum estudo de técnica nova que poderei usar adiante e, fora de hora, jogando, jogando, jogando… além de ver algum filme e curtir minha esposa, nossos gatos.

Jogar é algo que gosto, desde pequeno, por isso ainda resisto a largar o PlayFire. A rede social dos gamers. Mas entro nela muito raramente agora, apenas para olhar as novidades dos consoles, semanalmente. No msn, apesar do entra e sai de gente (sim, sou sincero, eu “apago” pessoas de tempos em tempos), noto que sempre ficam os mesmos de sempre ali, que me acompanham já faz anos. Por isso, o msn permanece, mas com a diferença que falo muito menos que antes. Motivo? Bom, pra que despender horas entre abre janela, fala e fecha janela, se se pode falar pessoalmente com os amigos. Convidar pessoas, isso eu tenho feito. Meus amigos, quero que me visitem ou que estejam prontos para serem visitados, com uma combinação prévia pra não aborrecer ninguém. Convidar para jogar comigo, mas é claro! Ou pra almoçar conosco, já que estou de casa nova pós casamento oficial. Você não precisa de uma mansão e coisas hiper legais para ser um bom amigo de alguém. O difícil está em falar com as pessoas. O virtual esbarra no “meus conhecidos são meus amigos”, e isso nem sempre é verdade (pra não dizer raramente). Um amigo virtual, tirando poucos que se sobressaem, está próximo a um colega de trabalho normal, mas ainda abaixo. Você raspa e filtra o que vai e o que vem, mas sem poder ver as reações da pessoa. Fiz alguns amigos na Internet, que virtualmente são bons amigos, mas basta puxar um fio da tomada e nunca mais voltar (ou eles fazerem isso) que o elo estará perdido. E tenho estado muito menos online que pouco tempo atrás.

O twitter começou muito bem pra mim, havia uma gama imensa de informações mashable com coleções de até 450 itens de um único assunto. Hoje, se aparecer mashables de 10 itens é de se surpreender. O povo está claramente cansando e ele se tornou um “msn público”, o que vai levar o serviço ao esgotamento. O baleiar do twitter se deve justamente pelo grande volume do uso errado da ferramenta. Dou por certo que ele foi projetado para que uma pessoa poste lá 3 itens por hora, se possível da rua usando o celular comum e não um computador ou smartphone com teclado extendido. O problema, e me incluo nele, é que quando se estaciona na frente dele por uns minutos, a pessoa larga 10 tweets facilmente. E o efeito “camada” se torna inútil, porque mesmo filtrando, você não vai acompanhar metade do que os que você segue irá postar. O que se vê são BLOCOS de mensagens da mesma pessoa em um espaço muito curto de tempo, quando bate no ápice o serviço tranca por erro (o que acumula as pessoas tentando enviar mais mensagens). Tanto o é que o meu twitter anda de quarentena, parte pelos erros, parte porque tenho reduzido drasticamente a parcela de tempo diante dele.

A única razão de manter o Live Spaces, serviço integrado ao msn, é porque ele se atualiza sozinho baseado no que eu faço em outros locais.

Blogar e agora escrever neste espaço, a coluna, com textos maiores e mais elaborados com assuntos que me batem em mente, faço por prazer a medida que posso e sinto que devo. A lista de rascunhos é grande, até, porque começo falando de um assunto de fachada e outro, mais sério, como pano de fundo. Não o faço mais para tentar obter mérito, fui vencido virtualmente e não quero me dedicar 18 horas para tornar estes espaços efetivamente públicos. Escrevo para poucos, para meus amigos que gostam de ler e, aos que não sou ainda amigo, que apreciem a forma como descrevo fatos e razões.

A verdade é que o tempo é curto, morrer virtualmente é uma necessidade para viver de verdade. A vida real está lá fora. Ou dentro de casa, com uma fina camada de poeira enquanto se despende horas sobre o virtual. Ou isso, ou você está sacrificando algo (tipo trabalho), com uma imensa quantidade de criatividade em outro foco e deixando de fazer grandes coisas, para fazer “o necessário”. Há quem se contente com “o necessário”, geralmente eles OU são invejosos, OU ladrões de etiqueta – aqueles que te passam a perna com um largo e educado sorriso nos lábios com ‘n’ justificativas pelos seus atos, geralmente na maior cara de pau. A verdade é que ninguém quer apenas “o necessário” se pode ter mais, salvo se for preguiçoso mesmo… e, como diz num dos Provérbios da Bíblia, da preguiça vem a pobreza.